sábado, 27 de dezembro de 2008

Os Sete Vales (O 7º vale)


E então vem O Sétimo Vale, que é o último, o definitivo o vale dos hinos, o vale da celebração.
Renascimento, ressurreição, acontecem no sétimo vale. É esse o significado da idéia cristã da ressurreição - que Cristo renasceu, renasceu num corpo de glória, renasceu num corpo de luz, renasceu num corpo divino. Agora, não há positivo, não há negativo. Agora, não há dualidade. Um é um. A unidade surgiu - o que os hindus chamam de adwaita. O dual desapareceu. Chegamos em casa.
O vale dos hinos...Al-Ghazzali lhe deu um bonito nome. Nada restou - apenas uma canção, uma canção de celebração, de louvor a Deus, total êxtase. É isto o que eu chamo de orgasmo definitivo.
Se eu fosse dar um nome a este vale, eu o chamaria vale do orgasmo total. Há apenas celebração.
Florescemos, florimos. A fragrância foi liberta. Agora, não há lugar algum para ir. O homem se tornou aquilo que estava buscando, procurando, lutando.
O homem é um paradoxo. Ele não é o que é. Mas, no dia em que você compreender o definitivo, você sentirá um sorriso surgindo no seu próprio coração, porque aí você saberá que você sempre foi isso. Era apenas desconhecido. O futuro estava contido em você, escondido. Você teve que descobri-lo. Estes sete vales são os vales da descoberta.
Este é um lindo mapa. É o mapa sufi.

Os Sete Vales (O 6º vale)

Aí vem O Sexto Vale - o vale abismal.
Desaparece-se. No quinto estava desaparecendo; no sexto não mais existe. Desaparece-se se é apenas memória do passado. No quinto você estava entrando na morte; no sexto, a morte aconteceu, morreu-se, não mais se existe. É por isso que é chamado de 'vale abismal". É o mais doloroso, porque é o sexto, o penúltimo. Passa-se pela grande dor de não ser, do nada. Não se pode acreditar - porque em certo sentido , se existe, e num outro sentido, não mais se existe. O paradoxo chegou ao pico definitivo. Existe-se e não se existe. Pode-se ver o próprio cadáver - morremos - e ainda assim, sabe-se que estamos vendo, que estamos resistindo de algum modo, em algum sentido. Todas as idéias do passado do ser se tornaram irrelevantes. Uma nova idéia de ser surge.
A morte acontece, desaparecemos. É isso que os cristão chamam de crucificação. Alcançamos o nada, somos apenas um céu vazio. Os hindus o chamam de samadhi, o povo zen o chama de satori.
E a parte negativa reclama. Será bom relembrar vocês. Na crucificação, Jesus Cristo mostrou ambas as atitudes. Primeiro ele reclamou. Ele olhou para o céu e disse: "Porque? Porque o Senhor me desamparou? "Porque o Senhor me abandonou? Esta é a parte negativa. Ele está reclamando. Ele está morrendo e não chega nenhuma ajuda. Ele está na cruz - e bem lá no fundo devia haver um desejo a espreita, um desejo de que a mào de Deus viria e tudo estaria ok, e a cruz se tornaria uma coroa e ele desceria numa nova glória. Em algum lugar devia haver um desejo a espreita, no mais profundo inconsciente de sua mente - ele poderia nem estar consciente dele. Ele esperou suficientemente, a última questão chegou. Ele carregou a cruz nas montanhas, ele sofreu todos os tipos de humilhação, mas ele esperou, esperou pacientemente - esperou por este momento. Agora as suas mãos foram pregadas. É uma questão de segundos e ele terá ido. Não há mais tempo para esperar e a ajuda não veio...e Deus não está visível. Por isso o grito "Porque me desamparaste? Porque me abandonaste?" Esta é a parte negativa, natural até num homem como Jesus.
Se você pensa no seu passado e reclama - "Eu tenho feito tudo o que me foi pedido, tudo o que me foi ordenado fazer. Eu o segui cegamente, e é este o resultado? É esta a realização?"
A parte positiva é gratidão profunda. Com a segunda parte, a parte positiva, esquecemos o passado, olhamos para o futuro e confiamos. O último teste chegou, o teste definitivo, e nos sentimos gratos de que "se for este o seu desejo, seja feita a sua vontade". É isso o que Jesus fez. Ele mostrou ambas as atitudes. Primeiro, ele mostrou a negativa - o que é muito humano. É por isso que ele costumava dizer sempre :"Eu sou o filho do homem". Tantas vezes quantas disse "Eu sou o filho de Deus" , ele disse "eu sou o filho do homem".Ele era a eternidade entrando no tempo; ele era o além vindo para o mundo. Ele pertencia a ambos, o mundo e o além. É como cada mestre se relaciona - com ambos. Um pé está num mundo, o outro pé está no outro mundo. E no dia da crucificação naquele momento em que tudo estava desaparecendo, Jesus mostrou as duas atitudes. Primeiro ele mostra a atitude de ser "Filho do Homem". Ele diz :"Porque? Porque me abandonaste? Eu esperei, eu orei, eu vivi uma vida de virtude - e essa é a realização? Essa é a recompensa?"
Mas imediatamente ele compreende que está se perdendo. Se é esse o desejo de Deus, então tem que ser assim. Ele se rende. A parte positiva é gratidão, rendição.
Com "Porque me abandonaste?" ele reconhece a sua queixa, a sua humanidade. Ele deve ter rido naquele momento, ele deve ter visto a sua limitação como ser humano, e jogou-a fora. Imediatamente ele disse, sua declaração imediata: "O reino veio. Assim seja". Agora ele não mais existe. Agora ele não tem desejo próprio.

Os Sete Vales (O 5º vale)



O Quinto Vale...o vale trovejante.
No quinto vale você entra na morte. No quarto vale você entrou no sono, na escuridão; no quinto você entra na morte. Ou, se você gostar de usar terminologia moderna, no quarto você entra no inconsciente pessoal, no quinto você entra no inconsciente coletivo. Surge um grande medo porque você está perdendo a sua individualidade.
No quarto você estava perdendo luz, dia, mas você existia. No quinto você está se perdendo - você não sente como se existisse, você está se dispersando, você está se fundindo. Seu sentimento de que "eu sou um centro" começa a se tornar vago, enevoado.
Com a entrada na morte, com a entrada no inconsciente coletivo surge um grande medo, grande angústia é sentida - a maior angústia que você jamais sentiu - porque surge a questão: ser ou não ser? Você está desaparecendo, todo o seu ser desejará ser. Você gostaria de voltar ao quarto vale. Era escuro, mas pelo menos era bom - você existia lá. Agora, a escuridão se tornou mais densa. Não apenas isso, você está desaparecendo dentro dela. Logo, nenhum traço seu existirá.
A parte negativa é agarrar-se ao ser. É por isso que grandes professores - Buda ou Jalaludin Rumi - insistiam: - "Lembre-se, não-ser, "anatta". Os sufis o chamavam de fana - desaparece-se. E podemos estar preparados para este desaparecimento, podemos estar prontos - não apenas prontos mas muito receptivos. Isso trará grande alegria , porque toda a sua miséria está contida no seu ego. A própria idéia de que "Eu sou" cria todos os tipos de ansiedade e problemas para você. O ego é o inferno.
Jean Paul Sartre disse: "O inferno são os outros". Isso não é verdade. O inferno é você, o inferno é o ego! Se os outros parecem o inferno, eles parecem o inferno também por causa do ego - porque eles machucam continuamente. Eles vão apertando os seus botões. Porque você tem esta ferida do ego, todos parecem machucar você. É apenas sua a idéia de que 'Eu sou especial' e quando alguém não o reconhece, isso provoca dor. Quando você não tem nenhuma idéia de ser especial - o que o povo zen chama de "tornar-se comum" - se você se torna comum, então este vale pode ser cruzado. Se você se torna ninguém, então este vale pode ser facilmente cruzado.
Então, a parte negativa é agarrar-se ao ser e a parte positiva é relaxar no não-ser, dentro do nada - estando pronto para morrer, desejosamente, alegremente, voluntariamente.

Os Sete Vales (O 4º vale)

Então, chega o quarto vale: o vale das tribulações.
A entrada dentro do inconsciente acontece no quarto vale. Até agora você estava confinado no mundo do consciente. Agora, pela primeira vez, você entrará nos mais profundos campos do seu ser, o inconsciente, a parte mais escura, a parte da noite. Até agora, você estava na parte do dia. Era mais fácil. Agora, as coisas se tornarão mais difíceis. Quanto mais alto você vai, mais tem que pagar. Coma cada degrau mais alto, a jornada se torna mais árdua e a queda mais perigosa. E se precisa estar mais alerta. Em cada degrau, mais consciência será necessária, porque você estará se movendo em planos mais altos.
O vale das tribulações é a entrada no inconsciente. É a entrada naquilo que os místicos cristão chamam de "a noite escura da alma". É a entrada dentro do mundo louco que você esconde de você mesmo. É muito misterioso, é muito caprichoso, bizarro. Até o terceiro vale, um homem pode seguir sem um mestre, mas não além do terceiro. Até o terceiro pode se ir por conta própria. No quarto vale um mestre é uma necessidade.
E quando eu digo que se pode ir até o terceiro por conta própria, não quero dizer que se tem que ir e também não quero dizer que todo mundo estará apto a ir. Eu estou simplesmente falando de uma possibilidade teórica. Até o terceiro vale é teoricamente possível que se possa seguir sem um mestre. Mas com o quarto um mestre se torna uma necessidade absoluta. - porque agora você estará tateando num quarto escuro. Você não tem nenhuma luz própria que possa usar nesta escuridão. A luz de alguém será necessária - alguém que entrou dentro desta noite escura e pelo qual se tornou possível ver nessa escuridão.
A parte negativa do vale das tribulações é a dúvida - grande dúvida surge! Você não sabe o que é a dúvida, você não sabe ainda! Tudo o que você pensa que é dúvida não é mais que ceticismo, não é dúvida. A dúvida é um fenômeno completamente diferente.
Alguém diz: "Deus existe!"; você diz: "Eu duvido". Você não duvida. Como você pode duvidar? Você está sendo apenas cético. Você está só dizendo "Eu não sei". Em vez de dizer "eu não sei", você está usando a palavra muito forte "dúvida". Como você pode duvidar? A dúvida é possível quando você está encarando uma realidade.
Por exemplo, você nunca viu um fantasma. E você diz: "Eu duvido da existência de fantasmas". Isto não é dúvida, é apenas ser cético. Você está simplesmente dizendo: "eu nunca cruzei com nenhum, então, como posso acreditar? Eu duvido. "Isso não é dúvida. Dúvida será quando, um dia passando pelo cemitério, você de repente cruza com um fantasma! Então todo o seu ser será sacudido. Aí sim você estará em verdadeira dúvida, tentando saber se aquilo que vê é realidade ou alucinação.
A dúvida é muito existencial; o ceticismo é intelectual. O ceticismo está só na mente; a dúvida entra no seu próprio ser, todo o seu corpo-mente-alma. Sua estabilidade é sacudida.
Nessa noite escura da alma, a dúvida surge. Dúvida sobre Deus - por você estava buscando por mais luz e acontece isso, justo o oposto. Você estava procurando por êxtase e caiu na noite escura. Uma grande dúvida surge sobre se você está certo, sobre se esta procura tem valor - porque você buscava ouro, você buscava luz, e iluminação, e nirvana, e samadhi, e satori, e ao invés de satori e samadhi, esta noite escura envolveu você. Mesmo aquelas luzes que costumavam existir não existem mais. Mesmo aquelas certezas que costumavam existir não existem mais.
Você costumava saber algumas coisas; agora você não sabe nada. Você tinha certa segurança. Até isso se foi. A própria terra escorregou sob os seus pés; você está se afogando. Então, a dúvida surge. Aí, você começa a sentir que talvez toda esta imagem religiosa seja insensata, talvez não haja Deus, talvez você esteja se enganando, talvez você tenha escolhido algo absurdo. Seria melhor viver no mundo, ser do mundo. Seria melhor ter muito mais coisas: curtir o poder, o dinheiro, o sexo. O que eu fiz? Eu perdi tudo e este é o resultado?
Para todo buscador este momento chega. E se surge esta dúvida, então, naturalmente, o buscador começa a defender-se contra a escuridão. Cria-se uma armadura em volta de si mesmo contra a escuridão, a escuridão invasora. É preciso proteger-se, se você fizer isso, será jogado de volta a parte consciente da mente. Você perderá o mistério da escuridão. A luz é linda, mas não é comparável com a escuridão. A escuridão é mais linda, mais fria, mais profunda. A escuridão tem profundidade, a luz é rasa. E a menos que você seja capaz de dar as boas vindas a escuridão, você não será capaz de dar as boas vindas a morte.
Então, a primeira coisa é que você tem que dar as boas vindas, aceitar, relaxar. Esta escuridão é o primeiro vislumbre de Deus. É escuro, mas, mais tarde, você compreenderá que não era escuro. É que, na verdade, pela primeira vez você abriu os olhos em direção a Deus e era muito deslumbrante, é por isso que parece escuro. Não era escuro; a escuridão era a sua interpretação.
Olhe para o sol por alguns segundos e logo você estará cercado pela escuridão. É demais, você não pode encará-lo. Um homem pode ficar cego se olhar muito para o sol. Olhe para o sol durante alguns segundos e então entre em casa: você encontrará toda a casa cheia de escuridão. Há um momento, você estava lá e podia ver tudo. Agora, não pode ver nada; você tropeçará nas coisas.
Aquilo que está escuro é interpretação. É natural. Mais tarde, quando ultrapassar o vale, você estará apto para olhar para trás e ver a realidade. Só um mestre pode pegar na sua mão nesta noite escura da alma e torná-lo confiante, pode dizer e convencê-lo: -"Não se preocupe. Apenas parece escuro, não é escuro. É o primeiro encontro com Deus. Você está chegando mais perto."
Há três coisas para serem compreendidas: sono, morte e samadhi.
O sono é como a morte. No oriente, nós dizemos que ele é uma morte pequena, minúscula. Nós morremos toda noite e desaparecemos na noite escura. Então, chega a morte - uma morte muito maior que o sono. O corpo desaparece, mas a mente permanece e nasce novamente. Aí, vem a última morte, a morte definitiva - samadhi - quando o corpo desaparece, a mente desaparece e apenas o mais recôndito cerne, a consciência, permanece. Esta é a morte definitiva.
No quarto vale você se depara com o primeiro vislumbre de como a morte definitiva vai lhe acontecer. Se você a rejeitar, se você defender-se contra ela, se você criar uma armadura, você será jogado de volta ao terceiro vale e você perderá. E uma vez que tenha perdido o quarto, você sempre terá medo de ir novamente através dele.
Minha observação sobre as pessoas é que as que entraram no quarto vale em alguma de suas vidas passadas e ficaram muito amedrontadas e escaparam, são as pessoas que sempre tem medo de alguma coisa mais profunda. Amor - e eles tem medo. Orgasmo - e eles terão medo. Amizade - e assim por diante; além disso, eles terão medo. Discipulado - e eles terão medo. Rendição - e eles terão medo. Prece - e eles terão medo. Eles terão medo de todas aquelas coisas que poderão trazê-los de volta ao quarto vale. Eles podem não estar conscientes do que é que tem medo.
O quarto vale é muito importante porque está no meio. Há sete vales, o quarto está bem no meio. Três estão deste lado e três estão daquele lado. O quarto é imensamente importante; ele é a ponte. O mestre é necessário nesta ponte porque você passa do conhecido para o desconhecido, do finito ao infinito, do insignificante ao profundo.
A parte positiva é a confiança, a rendição. A parte negativa é a dúvida, a defesa. O mestre começa a ensinar você sobre confiança e rendição desde o começo, então, aos poucos, isso se torna a sua atmosfera - porque isso será necessário quando você entrar no quarto vale.
Às vezes, as pessoas vêm a mim e dizem: "Porque não podemos ficar aqui sem rendição? Porque não podemos meditar e ouvi-lo e sermos beneficiados o tanto quanto quisermos? Qual é o objetivo da rendição?"Elas não compreendem. No começo, pode não parecer tão relevante. Porque? Para que? Você pode me ouvir sem se render e você pode meditar aqui sem rendição. Parece perfeitamente bem. A rendição parece não ser necessária. Mas você não sabe o que vai acontecer no futuro. Para isso, a preparação tem que começar agora mesmo. Você não pode esperar por aquele momento. Se a preparação não for feita antes, você perderá. Então, quando o tempo chegar, quando a sua casa estiver em chamas e você ainda não tiver cavado o poço, você começará a cavá-lo, mas só irá terminá-lo quando a casa já tenha se transformado em cinzas.
É necessário cavar o poço antes da casa pegar fogo! Agora, pode não parecer relevante. Eu posso entender. Logicamente, isso não é relevante neste momento. Ouvindo-me, porque é necessária a rendição? Mas, quando você entrar no quarto vale, a rendição será necessária. E você não pode aprender repentinamente os caminhos da rendição. Você tem que ir aprendendo antes da necessidade surgir. A rendição tem que se tornar a sua atmosfera.

Os Sete Vales (O 3º vale)


terceiro vale...o terceiro vale é chamado de vale das pedras de tropeço.
Uma vez que a consciência tenha surgido, agora você estará apto para ver quantas pedras de tropeço existem. Você terá olhos para ver quantos obstáculos existem. Há paredes sobre paredes. Há portas também, mas são poucas e longe umas das outras. Você estará apto para ver todas as pedras de tropeço.
Al-Ghazzali diz que elas são quatro: em primeiro lugar, o mundo sedutor - o mundo das coisas. Elas são muito fascinantes. A ambição é criada. Porque todas as religiões vem dizendo que é necessário ir além das tentações mundanas? Porque se você está tentado pelas coisas do mundo e você deseja demais coisas mundanas, você não terá energia suficiente para desejar Deus. Seu desejo será perdido em coisas.
Um homem que deseja uma grande casa, uma grande conta bancária, grande poder no mundo e prestígio, põe todo seu desejo, suas energias, no mundo. Nada é deixado para buscar Deus.
As coisas, em si próprias, não são más. Os sufis não são contra as coisas, lembre-se. Os sufis dizem que as coisas são boas em si próprias, mas quem começou a buscar Deus e a verdade definitiva não pode ter recursos para elas. Você tem uma certa qualidade e uma certa quantidade de energia. Toda a energia precisa ser dirigida para um desejo. Todos os desejos têm que se tornar um, só assim se pode chegar a Deus, só assim você pode superar este terceiro vale.
Comumente, nós temos muitos desejos. A pessoa religiosa é aquela que tem um único desejo, em que todos os outros desejos deságuam num único desejo imenso - como pequenos rios que deságuam formando o Ganges. - desse jeito. Uma pessoa religiosa é aquela em que todos os outros desejos se tornaram um: ela deseja apenas Deus, ela deseja apenas transcendência.
Assim, a primeira é o mundo das tentações; a segunda é gente - a fixação, a atração por pessoas.
De novo, lembre-se, os sufis não são contra pessoas, mas dizem que não se pode ficar ligado as pessoas. De outro modo, a própria fixação se transforma num obstáculo, uma pedra no caminho de Deus. Esteja com a sua mulher, com o seu homem, com os seus filhos, com os seus amigos, mas lembre-se que somos todos estranhos aqui e que a nossa proximidade é acidental. Nós somos viajantes e nos encontramos na estrada. Por alguns dias talvez fiquemos juntos - agradeça a isso - mas, cedo ou tarde os caminhos se separam. Sua esposa morre, ela vai no seu próprio caminho e você não sabe aonde. Ou, sua esposa se apaixona por outra pessoa e seus caminhos se separam. Ou você se apaixona por outra pessoa. Ou seu filho cresce e toma a direção da própria vida e se afasta de você - todo filho precisa se mover para longe dos pais.Nós estamos juntos nesta estrada apenas por uns poucos dias e o nosso estar juntos é acidental. Não há nada eterno. Esteja com as pessoas, seja afetuoso, tenha compaixão com as pessoas, mas não se torne apegado - de outro modo, o apego não lhe permitirá liberdade suficiente para ir além.
Então, o segundo é pessoas, ligações. O terceiro Al-Ghazzali chama satan e o quarto, ego.
Por satan fica entendido que é a mente - a mente que você acumulou no passado. Embora a consciência tenha surgido, embora você tenha se tornado mais consciente do que nunca, o mecanismo da mente ainda existe, a espreita. Ela ainda ficará a espreita por algum tempo. Esteve com você tanto tempo que não pode deixá-lo repentinamente. Leva tempo. E a mente espera e vigia - se alguma oportunidade surgir, ela imediatamente saltará e tomará posse de você. Ela tem sido o seu mestre, você tem atuado como um escravo. A mente não pode aceitar que você tenha se tornado um mestre tão de repente. Leva tempo.A mente é um mecanismo, existe sempre. Para o buscador, a mente é o demônio. Todas as histórias sobre o demônio não são nada mais que histórias sobre a mente. O demônio - ou satan, como os sufis chamam o demônio - é apenas um nome mitológico para a mente.
Quando o demônio tenta Jesus, você pensa que algum demônio está lá, em algum lugar? Não seja tolo! Não há nenhum demônio do lado de fora. A tentação estava vindo da própria mente de Jesus. A mente diz: "Agora que você se tornou tão miraculosamente poderoso, porque se preocupar com as outras coisas? Porque não ter o reino do mundo todo? Você pode tê-lo! Está dentro dos seus escopos. Voce pode possuir o mundo todo, você tem muito poder. Você está muito alto espiritualmente. Seus siddhis estão quitados. Você pode ter todo o dinheiro e todo o prestígio que quiser. Porque se preocupar com Deus e religião? Use esta oportunidade. A mente está tentando.
E quando Jesus diz: "Não venha em minha direção! Vá embora!" ele não está falando para algum demônio externo. Ele está simplesmente dizendo a mente: "por favor, não se aproxime do meu caminho. Eu não estou mais preocupado com os seus desejos, eu não estou preocupado com os seus projetos eu estou em uma jornada totalmente diferente. Voce não sabe nada a respeito dela, fique quieta!".
E o quarto é o ego - uma das maiores pedras de tropeço no caminho dos buscadores. Quando você se torna um pouco consciente, quando a sua consciência surge, e você começa a ver as pedras de tropeço, um grande ego - não se sabe de onde - de repente, toma posse de você: "eu tornei um santo, um homem muito sábio! Eu não sou mais comum, eu sou extraordinário!" E o problema é que você é extraordinário! É verdade! O ego pode prová-lo. Este é o grande problema, porque o ego não está falando coisas sem sentido. Ele é sensível. É exatamente assim!
Entretanto, é necessário estar alerta, porque se você se atrapalha com o ego, com a idéia de que "Eu sou extraordinário!", então você ficará sempre no terceiro vale. Você nunca será capaz de chegar ao quarto, e o quarto trará mais flores e mais picos, picos mais altos e grandes alegrias - e você perderá.
Este é o lugar onde siddhis - forças espirituais - tornam-se a coisa mais obstaculizante.
A parte negativa é começar a lutar com essas pedras de tropeço. Se começar a lutar, você ficará perdido no vale. Não há necessidade de lutar. Não crie inimizade. Compreender, apenas, é suficiente.
Lutar significa repressão. Você pode reprimir o ego, você pode reprimir a sua ligação com as pessoas, você pode reprimir a sua ambição por coisas, você pode reprimir o seu satan, mas aquilo que for reprimido permanecerá, e você não será capaz de entrar no quarto vale.
Apenas aqueles que não tem repressões entrarão no quarto vale. Então, não comece reprimindo.A parte positiva é: tome o desafio - que o ego está desafiando você. Não tome isso como uma inimizade, em vez disso, tome-o como um desafio para ir além. Não lute com ele; compreenda-o. Olhe profundamente dentro dele. Olhe para o mecanismo: como ele funciona, como este novo ego está surgindo em você, como a mente continua a jogar com você, como você se torna ligado as pessoas, como você se torna ligado as coisas. Olhe como ele é com fria observação, sem antagonismos. Se você se tornar antagônico, você foi pego. Se você se tornar indulgente, você foi pego. E estas são as duas coisas mais fáceis. As pessoas conhecem apenas duas coisas: ou sabem como se tornaram amigas, ou como se tornaram inimigas. Esta é a única compreensão comum possível.
A terceira coisa ajudará. Seja vigilante, uma testemunha; nem amigo, nem inimigo. Seja indiferente. Apenas perceba que eles existem, porque se tomar qualquer atitude sentimental - contra ou a favor - os sentimentos se transformarão em cadeias. Sentimento quer dizer que você se atou. Lembre-se, você está tão atado aos seus inimigos quanto aos seus amigos. Se seu inimigo morre, você sentirá tanta saudade quanto você sentiria do seu amigo - as vezes até mais, porque ele estava dando algum sentido a sua vida. Lutando com ele você estava curtindo uma viagem. Agora ele não mais existe. O ego que estava sendo preenchido pela luta nunca mais será preenchido novamente. Você terá que encontrar um novo inimigo.Então, não faça inimigos e não faça amigos. Apenas veja. Seja muito científico no observar. Esta é a coisa positiva a fazer. Explore o que é o ego, e explore alegremente.

Os Sete Vales (O 2º vale)


O segundo vale é chamado o vale do arrependimento.
Quando você começa a examinar quem você é surge, naturalmente, grande arrependimento. Devido a tudo que você tem feito de errado, devido a tudo que você fez e não devia ter feito, você começa a sentir arrependimento. Um grande pico vem com a percepção - mas, de repente, com a percepção, a consciência surge. Lembre-se, a consciência que você tem não é consciência verdadeira. É uma moeda falsa; ela é dada pela sociedade.
As pessoas lhe disseram o que é certo e o que é errado; o que é moral e o que é imoral. Você não sabe exatamente o que é moral e o que é imoral. Mas, após cruzar o primeiro vale, você terá capacidade de saber exatamente o que é certo e o que é errado. E de repente, você verá o que tem feito de errado - quantas pessoas você tem machucado, quão sádico você tem sido com os outros, quão masoquista tem sido com você mesmo, quão destrutivo, violento, agressivo, raivoso, ciumento você tem sido até agora. Tudo isso virá para a sua visão. Isso é um produto secundário do tornar-se consciente - a consciência surge.
Esta consciência não tem nada a ver com a consciência comum que você tem - essa é emprestada. Você pode tê-la e entretanto, ela não magoa; ela não lhe dá uma dor tão verdadeira que pode transformá-lo através dela. Você apenas sabe mais ou menos o que é certo e continua a fazer o errado, continua a fazer o que você quer. O seu conhecimento do certo não faz a menor diferença para você. Você sabe que a raiva é mau, mas você continua raivoso. De um lado, você sabe que a raiva é má, de um lado você continua a ser raivoso, não há problema. De um lado você sabe que a possessividade não é boa, e de outro lado, você vai amontoando, você vai possuindo - não apenas coisas, mas começa a possuir pessoas. Você possui a sua esposa, o seu marido, seus filhos - come se eles fossem coisas, como se pudessem ser possuídos. Você destrói através da sua possessividade, e você sabe que é errado.
Esta consciência emprestada não ajuda, ela simplesmente oprime você. Com a passagem pelo primeiro vale, a sua própria consciência surge. Agora voce sabe exatamente o que está errado e se torna impossível ser de outra maneira.. É aqui que o ditado socrático se torna significante - "conhecimento é virtude".Agora, a parte negativa do vale do arrependimento...A parte negativa é que você pode se tornar muito preocupado com a culpa referente ao passado - que você fez isto e aquilo errado, que você tem feito milhões de coisas erradas. Você tem estado inconsciente aqui por tanto tempo que, se começar a contar tudo, criará uma espécie de morbidez. Você se tornará tão culpado que, em vez de crescer, cairá em profunda escuridão. Então, se a culpa surgir e você se tornar muito mórbido e muito preocupado com o passado, você permanecerá no segundo vale. Você não será capaz de ultrapassá-lo. Se o passado se torna tão importante, então, naturalmente você começará a chorar e gemer continuamente, batendo no peito e dizendo "quão errado eu tenho sido!!!".
A parte positiva tem a ver com o futuro, não com o passado. Sim, você percebeu que tem sido errado, mas isso era natural, porque você era inconsciente. Não há necessidade de sentir culpa. Como se pode ser certo quando se é inconsciente? Você percebeu isso - que todo seu passado foi errado - mas isso não cria um peso em seu peito.
Você percebeu. Esse perceber ajuda-o, porque você não será capaz de fazê-lo novamente - você parou com isso. Você sente tristeza por ter magoado tantas pessoas de tantas maneiras, mas sente alegria também; simultaneamente, porque agora isto não acontecerá mais. Você se livrou do passado e da culpa! Você não está preocupado sobre isso, você está interessado no futuro, na nova abertura.
Agora você tem a sua própria consciência; agora, o futuro vai ser totalmente diferente, qualitativamente diferente, radicalmente diferente. Você estará vibrando com a aventura. Agora você tem a sua própria consciência e a sua consciência nunca permitirá que você erre novamente. Não é que você tenha que controlar - quando a consciência verdadeira surge, não há necessidade de controlar, não há necessidade de disciplinar. O certo se torna a coisa natural. Então, o fácil é o certo e o certo é o fácil.De fato, quando a consciência surgir em você, se você quiser agir errado, terá de fazer grande esforço. E mesmo assim não há muita possibilidade de ter sucesso.
Sem a sua própria consciência, você tem que fazer muito esforço para ser certo, e mesmo assim não tem sucesso. Então, se fica estremecido. A pessoa se sente triste pelo passado, mas não mais se está oprimido, porque o passado não existe mais. Esta é a parte positiva - se pode sentir que a transformação ocorreu, que as bênçãos chegaram, que Deus lhe deu o imenso presente da consciência. Agora, a sua vida se moverá numa dimensão totalmente nova, numa rota nova.
Isso acontece quando a verdadeira moralidade nasce, a virtude, sheela.

Os Sete Vales (O 1º vale)


O primeiro vale...
O primeiro vale é chamado o vale do conhecimento. Naturalmente, o conhecimento tem que vir primeiro porque o homem começa pela instrução. Nenhum outro animal tem conhecimento; apenas o homem sabe, apenas o homem coleta conhecimento. Apenas o homem tem linguagem, escrituras, teorias. Então, o conhecimento tem de ser o primeiro vale.
A parte negativa deste vale é que você pode se tornar instruído, você pode se engendrar no conhecimento. Você pode esquecer a verdadeira proposta do conhecimento e pode ficar ligado ao próprio conhecimento. Aí, acumulará mais e mais conhecimento e pode ficar por várias vidas acumulando conhecimento. Você se tornará um grande estudante, um especialista, mas não se tornará um conhecedor.O caminho do conhecedor é totalmente diferente do caminho do conhecimento.
Há duas coisas quando o conhecimento acontece: o conteúdo do conhecimento - você sabe algo - e a consciência, o espelho, aquele que sabe. Se você ficar muito preso ao conteúdo do conhecimento ao invés de se ligar na capacidade de conhecer, você estará perdido no vale. A parte que pode fazê-lo ficar emaranhado, fisgado, preso, eu chamo de negativa.
Se você se tornar instruído está perdido; não pode cruzar o primeiro vale. E quanto mais conhecimento você tiver, mais confuso ficará - porque não há meios de decidir o que é verdade. Tudo que você ouve, se corretamente posto frente a você, se for feita a colocação lógica, parecerá certo. Não há outro jeito de decidir, não há critério. É por isso que continua acontecendo. Você vai a um mestre, ouve-o e ele parece certo. Então, vai até outro mestre, ouve-o e ele também parece certo. Você lê um livro e ele lhe parece certo; lê outro livro e lhe parece certo; você lê outro livro - talvez o oposto - e isso também tem a sua lógica, parece certo. Não há jeito de decidir o que é certo. E se você for acumulando, você irá acumulando contradições - relatos opostos. E há milhões de pontos de vista e, cedo ou tarde, você se tornará uma multidão de muitas filosofias e sistemas. Isso não vai ajudar. Isso se tornará o grande obstáculo.
A primeira coisa no vale do conhecimento é que é necessário permanecer alerta e estar enfaticamente interessado na capacidade de conhecer - não no objeto, não no conteúdo. A ênfase é no testemunhar, é preciso estar mais e mais alerta e consciente para se tornar um conhecedor. Não por saber mais coisas, mas apenas por se tornar mais alerta é possível se tornar verdadeiramente um conhecedor, você usou o positivo.

Os Sete Vales

O homem é um paradoxo. O homem é o único animal, o único ser que é paradoxal - essa é a singularidade do homem. A natureza especial do homem é o seu paradoxo interno. Todos os outros animais são não-paradoxais.
Uma árvore é uma árvore, um cachorro é um cachorro, mas um homem nunca tem tal singularidade. Ele está sempre em formação, crescendo. O homem está sempre se superando; este é o seu paradoxo. E isto existe no mais profundo do seu ser. Não é acidental, é absolutamente fundamental. Uma vez que você entende este paradoxo, você tem o primeiro vislumbre sobre a humanidade - sobre o que é o homem.
O homem é sempre um projeto, um vir a ser. Seu ser consiste em vir a ser - este é o paradoxo. Ele está sempre entre aquilo que ele foi e o que vai vir a ser. Ele está sempre entre seu passado e o seu futuro - uma ponte pendendo entre seu passado e seu futuro. Ele é uma surpresa, uma surpresa contínua. O homem nunca está contente com aquilo que ele é; ele está tentando ir além, sempre tentando ir além. Seja o que for que esteja fazendo, o seu esforço é, basicamente, como se tornar algo mais, algo maior, algo melhor. O homem é um desenvolvimento, um viajante, um peregrino - e a sua vida é uma peregrinação, uma peregrinação sem fim, que continua indefinidamente. Um cachorro nasce, uma árvore nasce...A árvore nasce com toda sua "arboridade" e o cachorro nasce com toda a sua "cachorrez". O homem não é um fato acabado, ele nasce apenas com a possibilidade, com um potencial. O homem nasce como espaço vazio, como uma não existência, nada está escrito.
Todos os outros seres tem uma certa essência, uma certa alma. No homem é exatamente o oposto. A sua existência vem primeiro e depois ele começa a buscar a sua essência. Nos outros animais a essência vem primeiro e a existência depois. Eles trazem um programa pré-determinado; eles nunca crescem, eles permanecem os mesmos. É por isso que parecem tão inocentes, tão despreocupados, tão sem tensão. Olhe para os olhos de uma vaca - quão pacífica, calma e tranqüila ela é. Não há ansiedade, angústia, nuvens. Olhe para os olhos de um homem - eles estão sempre anuviados. Eles sempre tem angústia, estão sempre estremecendo, o tremor de "será que eu estarei apto a encontrar-me ou não?" - o tremor de "será que eu me realizarei ou não?".
Os animais são tranqüilos, o homem é tensão. Esta é a sua glória e a sua angústia também. Esta é a sua dignidade e o seu problema também. É a sua glória porque ele é capaz de criar a si próprio - ele é um deus. E é a sua angústia porque a possibilidade de que ele possa falhar sempre existe, de que ele não seja capaz de criar a si próprio. Quem sabe? É a glória por causa da liberdade - ele não foi programado. Ele é o único animal que permanece sem programa. Não lhe foi dado um mapa, ele não foi ordenado.
O homem é o único ser que não é dirigido, que não tem comandos. Ele chega à existência vazio e então começa a buscar o seu ser as apalpadelas. Ele começa a experimentar, a criar e buscar. O homem é uma aventura.
Mas com a aventura está a incerteza, a insegurança, o fracasso e o medo. Sempre se pode errar. Há maiores possibilidades de se estar errado do que de estar certo. Há mil e um caminhos - qual é o certo? Você está sempre ansioso. E seja o que for que você escolha, a escolha é incerta, porque você nunca poderá ter certeza se este caminho o levará ao seu objetivo ou terminará num beco sem saída - se chegará a algum lugar ou terminará num deserto.
A glória do homem é a sua liberdade: ele pode criar-se, ele pode ser ele mesmo, nada lhe é forçado, ele é livre. E a miséria do homem é a de que ele não pode ter certeza, ele nunca pode ter a certeza de estar no caminho certo, de estar fazendo o que é significativo ou não.O homem é o único animal que fica louco. Ele tem que encarar problemas, resolvê-los, ir além deles. Esta é a primeira coisa que eu gostaria que vocês compreendessem.
Havia um grande mestre sufi - um dos maiores de todos os tempos - Al Ghazzali. Ele dizia: "No caminho do homem até Deus - do homem potencial ao homem verdadeiro, da possibilidade até a realidade - há sete vales". Estes sete vales são de imensa importância. Tente entendê-los, pois você terá que passar através destes sete vales.
Se você compreender corretamente o que fazer com um vale, você será capaz de ir além dele, e você chegará a um pico - porque cada vale é cercado por montanhas. Se você puder passar através do vale, não ficar emaranhado, perdido, se não ficar muito ligado no vale, permanecer indiferente, separado, uma testemunha, e se você continuar a se lembrar que este não é o seu lar, que você é um estranho aqui, e continuar lembrando que o pico tem que ser alcançado, e você não esquecer o pico - você chegará ao pico. Com cada vale cruzado há uma grande celebração.
Mas, após cada vale, você terá que entrar no outro vale. E isso continua. Há sete vales. Uma vez que você alcance o sétimo, não há mais. O homem atingiu seu ser, ele não é mais paradoxal. Não há tensão, não há angústia. É isto que no oriente nós chamamos de estado búdico. É isto que os cristãos chamam de estado crístico. É isto que os jainas chamam de estado "jainico" - tornar-se vitorioso. Há muitos nomes, mas idéia básica é a de que, a menos que o homem se torne Deus, ele permanece em ansiedade. E, para se tornar Deus, estes sete vales precisam ser atravessados.
E cada vale tem as suas próprias tentações. É muito provável que você possa ficar atraído por alguma coisa e não seja capaz de deixar o vale. Você tem que deixá-lo se quiser entrar no segundo vale. E, após cada vale há um pico, um grande pico. Após cada vale há júbilo e o júbilo vai ficando mais e mais intenso. E então, finalmente, no sétimo vale você atinge o orgasmo cósmico - você desaparece. Apenas Deus existe.
Observe estes sete vales e tente compreendê-los. E eu não penso que Al Ghazzali esteja falando sobre algo filosófico. Sufis não estão interessados em filosofia. Eles são um povo muito prático. Se eles dizem alguma coisa é isso que eles querem dizer. Se eles dizem alguma coisa, isso é dito para o buscador. Isso não é dito para os curiosos, para os intelectuais, mas para aqueles que estão no caminho, para aqueles que estão realmente trabalhando duro para ter um vislumbre da verdade. Isso é para os buscadores.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Wei Wu Wei

No mundo da objetividade, ação é muito importante. Tem-se que ser ativo porque só a ação é pertinente no mundo das coisas. Se você fizer algo terá mais coisas; só fazendo algo é que se pode mudar no mundo da objetividade. Já no mundo da subjetividade... inação. Fazer não é importante, mas sentir é.

A pessoa subjetiva é mais sonolenta, é sonhadora, preguiçosa; a pessoa objetiva é ativa, obcecada pela ação. A pessoa objetiva sempre precisa fazer isto ou aquilo, ela não pode sentar-se só, não pode descansar. Pode dormir - mas acordando, tem que fazer algo. A pessoa subjetiva é inativa. É muito difícil ela passar para a ação. A pessoa religiosa é a reunião dos opostos: ação em inação, inação em ação. Ela faz coisas, mas faz de tal maneira que nunca se torna um fazedor. Ela permanece um veículo de Deus, uma passagem - mesmo se estiver fazendo algo, não está fazendo... O fazer dela é muito brincalhão, não há nenhuma tensão nisto, nenhuma ansiedade, nenhuma obsessão. E até mesmo quando é inativa, não é pesada; mesmo sentada, ou deitada descansando, está cheia de energia. Ela não é letárgica - tem uma energia radiante. Porque os opostos encontraram-se nela numa síntese superior, ela pode agir como se estivesse num estado de inação e, ainda assim, você pode sentir a energia, você pode sentir uma vibração de tremenda atividade ao redor de seu ser. Onde quer que ela se mova, traz vida às pessoas. Só pela sua presença as pessoas mortas ficam vivas; só pelo seu toque as pessoas mortas voltam à vida.

Isto é wei wu wei: não movendo uma única polegada você chegou. Aqueles que lhe dão metas são seus inimigos. Esses que lhe recomendam tornar-se algo, e como, são os envenenadores. O real mestre simplesmente diz,"não há nada em que se tornar. Você já é desde sempre. Deixe de correr atrás de sombras. Sente-se silenciosamente e SEJA.” Sentando silenciosamente, não fazendo nada, a primavera vem e a grama cresce por si só.

Atividade é SANSARA, atividade é o mundo; e quando as pessoas de Zen disserem “abandone o mundo, eles não querem dizer “deixe sua casa, deixe a sociedade”, eles querem dizer “abandonem os apelos para agir”. Até mesmo se você tiver que fazer algo, faça mui passivamente. Se você está caminhando na rua faça-o passivamente. Dentro, o zazen continua, dentro você permanece sentado, movendo-se só no exterior. Se você estiver comendo, coma, mas dentro você permanece sentado. Pouco a pouco essa postura interna é atingida - em que você pode fazer coisas sem atividade. Uma vez aprendido isto, você pode fazer coisas e não será uma perturbação. Mas primeiro a pessoa tem que chegar às raízes, num centramento profundo.

Relaxar não é uma questão simples; é um dos mais complexos fenômenos, porque tudo aquilo que nos ensinaram foi tensão, ansiedade, angústia. Uma testemunha não é uma espectadora. Então o que é uma testemunha? Uma testemunha é aquele que mesmo participando permanece alerta. Uma testemunha está em um estado de WU-WEI. Uma testemunha não é aquele que escapou da vida. Experimente caminhando na rua: lembre-se que você é uma consciência. O caminhar continua, mas uma coisa nova é adicionada, uma riqueza nova. Você terá que aprender - é uma ação negativa. É uma das coisas mais significantes a serem aprendidas. Sabemos fazer coisas; este é o modo positivo, agressivo, masculino.

Há outro enfoque, mais sutil, mais gracioso, mais feminino: estar em um estado de deixar-se levar, estar em um estado de rendição, e permitir a existência fluir por você. Isto é o fazer através do não-fazer. De certo modo é negativo, porque você não está fazendo nada.
Significa permitir que as coisa aconteçam. Não faça nada, permita acontecer. E este é o caminho do coração.


O caminho do coração significa o caminho do amor. Você pode fazer o amor? É impossível fazer o amor. Você pode estar apaixonado, mas você não pode fazer o amor. Mas usamos expressões, como 'fazendo amor', que tolice!. Como você pode fazer o amor? Quando amor é, você não é. Quando amor acontecer, o manipulador, o fazedor, desaparecem.O amor não permite nenhuma manipulação de sua parte. Acontece. Acontece repentinamente, inesperadamente. É um presente. Da mesma maneira que vida é um presente, amor é um presente.]

Estes são momentos raros, quando não há nenhuma ação e nenhuma inação, e você está imóvel. Não que você fique letárgico. Você tem energia, mas a energia não vai a nenhum lugar porque não há nenhum objetivo. A energia simplesmente está lá como um reservatório que sobe cada vez mais alto, mais e mais. Você está a ponto de explodir em algo absolutamente novo do qual você nem imagina. Você está à beira de um modo novo de vida: ação em inação. Então uma atividade nova começa na qual você não é o ator, no qual você é só um veículo, uma passagem.

Para ir até o seu centro, a pessoa precisa ser feminina, passiva, inativa, não-fazedor, não interferir, WU-WEI, meditativa; é preciso meditação, relaxamento, não concentração. A pessoa tem que relaxar -se completa e totalmente. Quando você não está fazendo nada você está no seu centro (*); quando você está fazendo algo você saiu dele. Quando você fez muito, você afastou-se demais de seu centro. Chegar mais perto dele significa que você está abandonando todas atividades, você está aprendendo a ser inativo, você está aprendendo a ser um não-fazedor.
Primeiro fique feminino, depois masculino. Primeiro seja passivo, depois introduza a ação. E quando ação vier da inação, floresce a beatitude; algo do além. Mas inação tem que ser aprendida primeiro e depois a ação. Então esta ação não é, de jeito nenhum, agressiva, e é isto que a faz bela, graciosa, meditativa. E quando ambos são equilibrados a verdade acontece e a verdade liberta.


O conceito taoista do wu-wei tem que ser lembrado por todo terapeuta -não interferir. Ele só abre as possibilidades, torna as oportunidades disponíveis. Apenas abre a porta."

(osho)
(tradução livre de Prashanto)

Energias Solar e Lunar

O sol representa o guerreiro, o lutador, o soldado. A lua representa o saniasin, o meditator, o místico, a energia calma... O sol é a energia quente, a energia violenta. É a mesma energia, não é uma energia diferente, mas ao passarem pela lua os raios do sol ficam amenos - este é o milagre da lua, a mudança alquímica que acontece através da lua. A lua só reflete, é um espelho. Mas com esta reflexão uma mudança radical acontece: os raios que são quentes, violentos, ficam frescos, calmos.

Meditação é o milagre que transforma a energia do sol em energia da lua dentro de você.

Isto tem que ser entendido muito cuidadosamente. Esta é a química interna. A lua e o sol são símbolos da alquimia interna. A lua significa o feminino dentro de você, e o sol significa o masculino dentro de você. Lua é intuição; sol é razão. Lua é yin; sol é yang. Essa é a terminologia índia para yin e yang. Lua é paz, silêncio, sol é energia, vitalidade. Lua é morte, sono, sonho, imaginação, sol é ação, vida, lógica.

Quando a lua e o sol se encontrarem dentro de você, haverá uma grande experiência. Esta experiência é a da Unidade - UNIO MYSTICA. Esta é a meta de todos os místicos -fazer o sol e a lua se encontrarem dentro de você. Esta é a real reunião de homem e mulher
É mais fácil meditar à noite que de dia. A meditação está mais próxima do dormir que de qualquer outra atividade, com uma diferença - no sono você cai no inconsciente, na meditação você permanece consciente, mas com o mesmo relaxamento. Durante o dia é difícil dormir, se você quer dormir de dia você tem que fechar as portas e as janelas e puxar todas as cortinas - assim fica escuro. Se os raios do sol entram não lhe permitirão dormir, eles ativam suas energias. A noite ajuda-o a descansar e relaxar.


Os saniasins deveriam usar a noite cada vez mais para meditar. Você pode se aprofundar mais, e facilmente, porque a brisa está soprando suavemente e você pode mover-se com ela com menos esforço. Durante o dia você está se movendo contra os ventos. Durante o dia meditações ativas são boas; meditação dinâmica é boa de dia, meditar dançando é bom de dia. Mas à noite pratique a Vipassana, meditações silenciosas. Ficar apenas sentado, não fazendo nada, porque toda a atmosfera está relaxando... O sol se pôs, as árvores dormem, uma qualidade totalmente diferente de energia o cerca à noite. É fácil meditar, pois a lua cria magia todas as noites.

E quando a lua cheia está no céu à noite é ainda mais fácil meditar. A noite de lua cheia é o melhor momento para meditação. Muitas pessoas que se tornaram budas atingiram a iluminação durante a lua cheia, como o próprio Buda. Pode ter sido uma coincidência, mas vale lembrar que ele nasceu numa noite de lua cheia, iluminou-se numa noite de lua cheia e morreu numa noite de lua cheia. Algo da lua cheia parecia estar sincronizado com a energia dele.

Houve métodos secretos para captar as energias da lua e do sol. Adoração do sol estava baseada numa certa técnica e grandes templos dedicados ao sol surgiram. O templo do sol de Konarak era até há pouco uma expressão de gratidão ao sol. Não era só adoração, era uma ciência -como adquirir a energia yang. É particularmente bom para as mulheres captarem a energia do sol, de forma que o yang escondido, dormente nelas, fique ativo, e é bom que os homens captem a energia da lua de forma que o princípio feminino, dormente neles, fique ativo...
É bom para a mulher ser uma adoradora do sol e bom para o homem ser um adorador da lua.


Osho
(adaptado por Prashanto)

Meditação da Lua

(lua quase no meio do céu )

1 - Mãos espalmadas, juntas, para cima, com o cristal bem no meio delas, com a ponta em direção aos dedos.
2 - Ficar assim um tempo, centrando a atenção no 6º chakra. Olhos fechados.
3 - Olhar para o cristal como se fosse um espelho onde se poderia ver o reflexo da lua.
4 - Girar devagar o corpo, no sentido em que se sentir melhor. Começando de frente para o LESTE. Descer as mãos até a altura do 4º chakra, depois elevar as mãos, inspirando profunda e lentamente, até o 6º chakra. Ficar um tempo aí. Descer expirando lentamente, trazer o cristal até o 4º chakra. Ao inspirar, imaginar absorver a escuridão da noite, sem lua. Ao expirar, imaginar jatos de luz saindo do 4º chakra, varrendo o espaço. Repetir quantas vezes quiser.
5 - Sentar e pôr a ponta do cristal em direção ao corpo, segurando-o, fortemente, com a mão menos usada no dia a dia, apoiada na outra e trazê-lo até o 3º chakra. Ficar assim, passivo(a), olhando, de olhos fechados, para o 6º chakra. Se puder, contate o poder lunar - o feminino, a intuição, o mistério oculto na noite, no inconsciente. Procure ficar totalmente imóvel, alerta internamente, imaginando a luz suave e fria da lua ocupando seu corpo.

Meditação do Sol

1 - Pôr o cristal toda a noite numa árvore já escolhida.
2 - Antes do sol nascer apanhar o cristal e esperar o sol nascer, em silêncio.
3 - Quando o sol começar a surgir, segurar o cristal com ambas as mãos pela ponta e pô-lo em direção ao sol na altura do 3º olho.
4 - Mentaliza-se a energia da planta acumulada no cristal, despertando-a e dirigindo-a para os pés.
5 - Inspirar profundamente puxando a energia para o primeiro chakra, concentrando-se ali por alguns instantes.
6 - Repetir o item 5, chakra por chakra até o sétimo, voltando à posição 3.
7 - Em seguida faz-se um arco de círculo para trás da cabeça. Sem dobrar os braços, e depois para frente até tocar o chão com o cristal, ficando algum tempo assim.
8 - Sobe-se na vertical, próximo ao corpo, parando em cada chakra e respirando ali fortemente, até a posição inicial, apontando para o sol.
9 - Repete-se o item 8 pelo menos cinco vezes respirando cada vez mais fortemente.
10 - Sentar-se, olhando internamente para o terceiro olho. Segurando o cristal fortemente com a mão mais usada no dia a dia, apoiada na outra e trazê-lo até o 3º chakra com a sua ponta em direção ao corpo. Ficar assim, passivo(a). Se puder, contate o poder solar - o masculino, da ação transformadora, da clareza. Imagine a energia solar ativa irradiando-se por todo o corpo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Campos Morfogenéticos


Havia um arquipélago no Pacífico povoado apenas por macacos. Eles sealimentavam de batatas, que tiravam da terra. Um dia, não se sabe porque, um desses macacos lavou a batata antes de comer, o que melhorou o sabor doalimento. Os outros o observaram, intrigados, e aos poucos começaram aimitá-lo. Quando o centésimo macaco lavou a sua batata, todos os macacos dasoutras ilhas começaram a lavar suas batatas antes de comer. E entre as ilhasnão havia nenhuma comunicação aparente.

Essa história (fictícia) exemplifica uma teoria criada pelo fisiologista inglês Rupert Sheldrake, denominada teoria dos campos morfogenéticos.

Segundo o cientista, os campos mórfogenéticos são estruturas invisíveis que se estendem no espaço-tempo e moldam a forma e o comportamento de todos ossistemas do mundo material. Todo átomo, molécula, célula ou organismo que existe gera um campo organizador invisível e ainda não detectável porqualquer instrumento, que afeta todas as unidades desse tipo. Assim, sempre que um membro de uma espécie aprende um comportamento, e esse comportamento é repetido vezes suficiente, o tal campo (molde) é modificado e amodificação afeta a espécie por inteiro, mesmo que não haja formas convencionais de contato entre seus membros. Isso explica porque, no exemplo, todos os macacos do arquipélago de repente começaram a lavar suas raízes, sem que houvesse comunicação entre as ilhas.

Mas outros exemplos na natureza - desta vez verdadeiros - ilustram bem uma organização invisível no comportamento dos animais. Pegue um gato, porexemplo. Separe-o do convívio com outros gatos poucos dias após o nascimento(algo infelizmente comum) e crie-o isolado. Ele vai ter todas as características comportamentais de um gato, as brincadeiras, inclusive o cacoete de só fazer as necessidades na areia (se tiver areia no lugar,claro). Quem ensinou isso? Milhares de anos de evolução, dirão os Darwinistas. Deus, dirão os Criacionistas. Mas nem um nem outro explica aquestão: Quem ensinou isso ao maldito gato que foi criado fora do convíviodos outros de sua maldita raça milenar?!

Ainda mais extraordinários são os pássaros jardineiros, cujo ninho é uma obra de arte, feito de palhas e ramos, e que não se esquecem, para encantarmais a fêmea, de enfeitar com o que se denomina "jóias", sejam ervas ou flores, ou pedrinhas todas iguais, para atapetar o chão. Quem ensinou isso?Foi um Deus caprichoso, que estava numa fase mais artistica e deu esse dompra esse pássaro e não para os outros? Ou foram seus genes, tão caprichosos quanto? Será que, baseado tão-somente na sobrevivência e possibilidades de acasalamento, não seria mais inteligente pra natureza espalhar essa técnica pra todos os pássaros e outros animais?

A ciência dá um valor muito alto aos genes. É uma verdadeira panacéia: senão sabemos explicar algo, simplesmente "culpamos" os genes. Exemplo disso é o processo de diferenciação e especialização celular que caracteriza o desenvolvimento embrionário. Como explicar que um aglomerado de células absolutamente iguais, dotadas do mesmo patrimônio genético, dê origem a um organismo complexo, no qual órgãos diferentes e especializados se formam,com precisão milimétrica, no lugar certo e no momento adequado? A biologia reducionista diz que isso se deve à ativação ou inativação de genes específicos, e que tal fato depende das interações de cada célula com sua vizinhança (entendendo-se por vizinhança as outras células do aglomerado e o meio ambiente). Tal formação do embrião acontece com precisão tanto aqui quanto na China, tanto no frio como no calor, tanto na poluição e radiaçãode NY, quanto nos bucólicos campos da Escócia...

A biologia reducionista transformou o DNA numa cartola de mágico, da qual épossível tirar qualquer coisa. Na vida real, porém, a atuação do DNA é bem mais modesta. O código genético nele inscrito coordena a síntese das proteínas, determinando a seqüência exata dos aminoácidos na construção dessas macro-moléculas. Os genes ditam essa estrutura primária e ponto. "Amaneira como as proteínas se distribuem dentro das células, as células nos tecidos, os tecidos nos órgãos e os órgãos nos organismos não estão programadas no código genético", afirma Sheldrake. "Dados os genes corretos, e portanto as proteínas adequadas, supõe-se que o organismo, de alguma maneira, se monte automaticamente. Isso é mais ou menos o mesmo que enviar, na ocasião certa, os materiais corretos para um local de construção e esperar que a casa se construa espontaneamente."

A morfogênese, isto é, a modelagem formal de sistemas biológicos como as células, os tecidos, os órgãos e os organismos seria ditada pelos campos morfogenéticos, uma estrutura espaço-temporal que direcionaria adiferenciação celular, fornecendo uma espécie de roteiro básico ou matriz para a ativação ou inativação dos genes, um papel semelhante ao da planta de um edifício. Devemos ter claras, porém, as limitações dessa analogia. Porque a planta é um conjunto estático de informações, que só pode ser implementado pela força de trabalho dos operários envolvidos na construção. Os campos morfogenéticos, ao contrário, estão eles mesmos em permanente interação comos sistemas vivos e se transformam o tempo todo graças ao processo de ressonância entre os campos.

Tanto quanto a diferenciação celular, a regeneração de organismos simples é um outro fenômeno que desafia a biologia reducionista e conspira a favor da hipótese dos campos morfogenéticos. Ela ocorre em espécies como a dos platelmintos, por exemplo. Se um animal desses for cortado em pedaços, cadaparte se transforma num organismo completo. Tal organismo parece estar associado a uma matriz invisível, que lhe permite regenerar sua forma original mesmo que partes importantes sejam removidas. Sheldrake já realizou várias pesquisas para provar que o corpo possui um campo mórfico e, quando se perde uma parte desse corpo, o campo permanece. Um exemplo é uma das experiências que fez: Uma pessoa que não tem parte do braço age como se estivesse empurrando o membro fantasma através de uma tela fina. Do outrolado da tela, uma outra pessoa tenta tocar o braço fantasma. De acordo comSheldrake, as duas pessoas envolvidas na experiência são capazes de sentir otoque. É uma prova (subjetiva) de que alguma coisa do braço ainda existe concretamente, e não apenas no cérebro da pessoa que o perdeu.

Depois de muitos anos de estudo e pesquisa chegou-se à conclusão de que achave desse mistério estaria numa espécie de memória: uma memória coletiva e inconsciente que faz com que formas e hábitos sejam transmitidos de geraçãopara geração. O campo morfogenético seria uma região de influência que atuadentro e em torno de todo organismo vivo. Algo parecido com o campo eletromagnético que existe em volta dos imãs. Para o cientista, cada grupode animais, plantas, pássaros etc, está cercado por uma espécie de campo invisível que contém uma memória, e que cada animal usa a memória de todosos outros animais da sua espécie. Esses campos são o meio pelo qual oshábitos de cada espécie se formam, se mantém e se repetem. No exemplo dos macacos, o conhecimento adquirido por um conjunto de indivíduos agrega-se ao patrimônio coletivo, provocando um acréscimo de consciência que passa a ser compartilhado por toda a espécie.

O processo responsável por essa coletivização da informação foi batizado por Sheldrake com o nome de ressonância mórfica. Por meio dela, as informaçõesse propagam no interior do campo mórfico, alimentando uma espécie de memória coletiva.

Os seres humanos também têm uma memória comum. É o que Jung chamou de inconsciente coletivo. A respeito disso, Sheldrake lança uma luz sobre aquestão 0 da existência de vidas passadas: Ele diz que, às vezes, as pessoas podem entrar em sintonia com as memórias de uma outra pessoa que existiu no passado. Isso que não significa que elas foram realmente aquela pessoa, mas que se teve acesso à memória dela. Talvez por isso existam por aí tantas reencarnações de Napoleão e Cleópatra...

Então, o campo morfogenético é algo que está dentro de nós, e fora de nós. Nos envolve e nos define, está presente em nossos pensamentos, e nossas atitudes. Pode estar por trás do Id; Pode ser a Força. O inconsciente coletivo; O Shaktipat; Em essência, o Tao; Ou mesmo Brahma! O Reino dos céus!

Os campos morfogenéticos também são responsáveis por aquela sensação que amaioria das pessoas tem quando sente que está sendo observada. Sheldrakeexplica:

"Entrevistei alguns detetives particulares, pessoal da vigilância napolícia, pelotões antiterrorismo da Irlanda do Norte e outras pessoas cujo negócio é olhar outras pessoas. A maior parte destes observadores profissionais está muito consciente desse fenômeno, e alguns daqueles que operam sistemas de segurança em shoppings, edifícios, aeroportos e hospitais também estão muito conscientes desse efeito. Em uma das principais lojas dedepartamento de Londres, os detetives da loja disseram que podiam olhar as pessoas na loja através de uma TV, e quando viam alguém roubando, um gatuno, muitas vezes perceberam que, se olhassem para essa pessoa muito intensamente, pela tela da TV, a pessoa começava a olhar a seu redor procurando as câmeras escondidas e depois devolvia o que tinha tirado e saíada loja. Um segurança em um hospital disse que onde isso dava mais certo eracom uma câmera oculta que cobria uma área onde as pessoas iam fumar, embora não fosse permitido fumar no hospital, mas quando ele observava os fumantes através da televisão de circuito fechado eles imediatamente começavam aparecer constrangidos e apagavam seus cigarros e saíam dali. Portanto, há muitas experiências práticas. No SAS britânico, que são as forças especiais usadas para tomar de assalto terroristas em embaixadas e lugares semelhantes, parte do treinamento ensina que, se você está se aproximando cuidadosamente de uma pessoa por trás, para esfaqueá-la nas costas, você não deve olhar fixamente para as costas dela, porque é quase certo que, se ofizer, ela vai se virar. E a primeira lição que um detetive particular aprende sobre seguir alguém é que você não olha para quem está seguindo, porque se olhar, ele vai se virar e seu disfarce terá sido descoberto".

Parece telepatia. Mas não é. Porque, tal como a conhecemos, a telepatia é uma atividade mental superior, focalizada e intencional que relaciona doisou mais indivíduos da espécie humana. A ressonância mórfica, ao contrário, é um processo básico, difuso e não-intencional que articula coletividades de qualquer tipo. Sheldrake apresenta um exemplo desconcertante dessa propriedade:

"Quando uma nova substância química é sintetizada em laboratório, não existe nenhum precedente que determine a maneira exata de como ela deverá cristalizar-se. Dependendo das características da molécula, várias formas decristalização são possíveis. Por acaso ou pela intervenção de fatores puramente circunstanciais, uma dessas possibilidades se efetiva e asubstância segue um padrão determinado de cristalização. Uma vez que isso ocorra, porém, um novo campo mórfico passa a existir. A partir de então, a ressonância mórfica gerada pelos primeiros cristais faz com que a ocorrênciado mesmo padrão de cristalização se torne mais provável em qualquer laboratório do mundo. E quanto mais vezes ele se efetivar, maior será a probabilidade de que aconteça novamente em experimentos futuros."

Com afirmações como essa, não espanta que a hipótese de Sheldrake tenha causado tanta polêmica. Em 1981, quando ele publicou seu primeiro livro, A New Science of Life (Uma nova ciência da vida), a obra foi recebida demaneira diametralmente oposta pelas duas principais revistas científicas daInglaterra. Enquanto a New Scientist elogiava o trabalho como "uma importante pesquisa científica", a Nature o considerava "o melhor candidato à fogueira em muitos anos".

Doutor em biologia pela tradicional Universidade de Cambridge e dono de uma larga experiência de vida, Sheldrake já era, então, suficientemente seguro de si para não se deixar destruir pelas críticas. Ele sabia muito bem que suas idéias heterodoxas não seriam aceitas com facilidade pela comunidade científica. Anos antes, havia experimentado uma pequena amostra disso, quando, na condição de pesquisador da Universidade de Cambridge e da RoyalSociety, lhe ocorreu pela primeira vez a hipótese dos campos mórfogenéticos. A idéia foi assimilada com entusiasmo por filósofos de mente aberta, mas Sheldrake virou motivo de gozação entre seus colegas biólogos. Cada vez quedizia alguma coisa do tipo "eu preciso telefonar", eles retrucavam com um"telefonar para quê? Comunique-se por ressonância mórfogenética". Era umabrincadeira amistosa, mas traduzia o desconforto da comunidade científicadiante de uma hipótese que trombava de frente com a visão de mundo dominante. Afinal, a corrente majoritária da biologia vangloriava-se de reduzir a atividade dos organismos vivos à mera interação físico-química entre moléculas e fazia do DNA uma resposta para todos os mistérios da vida.

A hipótese dos campos morfogenéticos é bem anterior a Sheldrake, tendo surgido nas cabeças de vários biólogos durante a década de 20. O que Sheldrake fez foi generalizar essa idéia, elaborando o conceito mais amplode campos mórficos, aplicável a todos os sistemas naturais e não apenas aosentes biológicos. Propôs também a existência do processo de ressonância mórfica, como princípio capaz de explicar o surgimento e a transformação dos campos mórficos. Não é difícil perceber os impactos que tal processo teriana vida humana. "Experimentos em psicologia mostram que é mais fácil aprender o que outras pessoas já aprenderam", informa Sheldrake.

Ele mesmo vem fazendo interessantes experimentos nessa área. Um deles mostrou que uma figura oculta numa ilustração em alto constraste torna-semais fácil de perceber depois de ter sido percebida por várias pessoas. Isso foi verificado numa pesquisa realizada entre populações da Europa, das Américas e da África em 1983. Em duas ocasiões, os pesquisadores mostraramas ilustrações 1 e 2 a pessoas que não conheciam suas respectivas"soluções". Entre uma enquete e outra, a figura 2 e sua "resposta" foram transmitidas pela TV. Verificou-se que o índice de acerto na segunda mostra subiu 76% para a ilustração 2, contra apenas 9% para a 1. Numa universidade inglesa, alguns pesquisadores conseguiram provar que as palavras cruzadas dos jornais são muito mais fáceis de resolver quando feitas no dia seguinteà publicação original.

Esse fenômeno é muito comum entre os químicos. Quando um deles tenta cristalizar um novo composto leva muito tempo para conseguir um bom resultado. Mas a partir desse momento em outros lugares do mundo muitos outros químicos conseguem cristalizar o mesmo composto num tempo muito mais curto.

Isso explicaria o porquê da geração dos anos 80 ter tido facilidade de programar o video cassete, e a geração de 90 dominar o computador e ocelular?

Se for definitivamente comprovado que os conteúdos mentais se transmitem imperceptivelmente de pessoa a pessoa, essa propriedade terá aplicações óbvias no domínio da educação. "Métodos educacionais que realcem o processode ressonância mórfica podem levar a uma notável aceleração do aprendizado", conjectura Sheldrake. E essa possibilidade vem sendo testada na Ross School, uma escola experimental de Nova York, dirigida pelo matemático e filósofoRalph Abraham.

Outra conseqüência ocorreria no campo da psicologia. Teorias psicológicas como as de Carl Gustav Jung e Stanislav Grof, que enfatizam as dimensões coletivas ou transpessoais da psique, receberiam um notável reforço, em contraposição ao modelo reducionista de Sigmund Freud (ver artigo "Nasfronteiras da consciência", em Globo Ciência nº 32).

Sem excluir outros fatores, o processo de ressonância mórfica forneceria umnovo e importante ingrediente para a compreensão de patologias coletivas,como o sadomasoquismo e os cultos da morbidez e da violência, que assumiram proporções epidêmicas no mundo contemporâneo, e poderia propiciar a criaçãode métodos mais efetivos de terapia. "A ressonância mórfica tende a reforçar qualquer padrão repetitivo, seja ele bom ou mal", afirmou Sheldrake aGalileu. "Por isso, cada um de nós é mais responsável do que imagina, pois nossas ações podem influenciar os outros e serem repetidas".

Abaixo, os melhores momentos da palestra de Rupert Sheldrake, intitulada "Amente ampliada" (que pode ser lida integralmente aqui):

EXPERIMENTO DO CACHORRO

Deixe-me dar um exemplo do tipo de histórias que temos em nosso banco de dados, sobre um cachorro que sabe quando seu dono está chegando em casa.Essa é de uma pessoa no Havaí: "Meu cachorro Debby sempre fica esperando naporta uma meia hora antes de meu pai chegar em casa do trabalho. Como meu pai estava no exército, ele tinha um horário de trabalho muito irregular. Não fazia diferença se meu pai ligava antes, e uma época eu achei que ocachorro reagia à chamada telefónica, mas isso obviamente não era o caso, porque às vezes meu pai dizia que estava vindo para casa mais cedo, mas tinha que ficar até mais tarde. Às vezes ele nem telefonava. O cachorro nunca se enganava, portanto eu eliminei a teoria do telefone. Minha mãe foia primeira pessoa que notou esse comportamento. Ela estava sempre preparando o jantar quando o cachorro ia para a porta. Se o cachorro não fosse até aporta, nós sabíamos que papai ia chegar mais tarde. Se ele chegasse tarde, o cachorro mesmo assim o esperava, mas só quando ele já estivesse no caminho de casa".

Temos agora em nosso banco de dados cerca de 580 relatos de cachorros que fazem isso, e cerca de 300 relatos de gatos que fazem isso, com esse tipo dequalidades. O cético de carteirinha irá dizer "bem, é apenas uma rotina", mas na maioria dos casos não é uma rotina (se fosse as pessoas nemnotariam). O próximo argumento do cético de carteirinha é "bom, o que deve acontecer é que as pessoas da casa sabem quando o dono está vindo e com isso seu estado emocional muda, e o animal capta essa mudança através de deixas sutis". Bem, é claro que isso é possível se as pessoas realmente prevê em que alguém está vindo para casa, seu estado emocional pode mudar, elas podem ficar excitadas ou talvez deprimidas e o animal pode captar essa mudança emocional e reagir a ela. Mas, em muitos dos casos, as pessoas na casa não sabem quando a outra está vindo para casa, é o animal que lhes diz, e não elas que dizem ao animal.

Quando eu estava discutindo esse assunto com Nicholas Humphrey, meu amigo cético disse: "bem, tudo isso ainda não elimina a possibilidade de que eles ouvem o barulho do motor do carro, um motor de carro familiar a 30, 40 quilômetros de distância", e eu disse: "isso é obviamente impossível". Eele: "pelo contrário, apenas demonstra como a audição dos cachorros éaguçada". Foi essa discussão que levou à ideia de fazer um experimento. Eu disse: "OK, e se eles vierem para casa de táxi, ou no carro de um amigo, ou de trem, ou de bicicleta da estação em uma bicicleta emprestada, para quenão haja sons familiares?" E ele disse: "nesse caso, o cachorro não reagiria", e desde a publicação deste livro eu já descobri muitos cachorros, gatos e outros animais que fazem isso.

Telefonamos para pessoas escolhidas aleatoriamente usando técnicas padronizadas de amostragem e perguntamos se elas tinham animais. Dos donosde animais, havia mais donos de cachorros do que de gatos na maior parte das localidades. Perguntávamos: então "seu animal parece saber previamente quando um membro da família está vindo para casa?" Aproximadamente 50% dosdonos de cachorro em todas as localidades disseram que sim - em Los Angeles foram mais de 60% - e podemos ver através desses resultados que os gatos em todas as localidades fazem isso menos que os cachorros.

Nos primeiros experimentos que foram feitos, pedíamos às pessoas que anotassem em um caderno o comportamento do cachorro, mas os céticos disseram: "bem, assim você tem uma tendência subjetiva". Portanto, agora nós fazemos uma fita de vídeo de todos os experimentos. Temos uma câmera devídeo em tripé, apontando para o lugar onde o cachorro ou o gato esperam pela pessoa que vem para casa. Há um controle de tempo na câmera e ela fica funcionando por horas. Então, temos horas de filme que irão mostrar se o cachorro ou o gato vão até a janela, e por quanto tempo ficam lá, um registro objetivo e perfeito. O que vou lhes mostrar é um vídeo de um desses experimentos que foi feito com um cachorro com que trabalhei principalmente na Inglaterra. O cachorro chama-se JT e o nome de sua dona é Pam. Quando Pamsai, ela deixa JT com seus pais, que vivem no apartamento ao lado do dela. Eles observaram há muitos anos que JT sempre ia para a janela quando Pamestava a caminho de casa, ou quase sempre. Esse experimento foi filmado profissionalmente pela televisão estatal austríaca, e foi filmado com duas câmeras, para que pudéssemos ver o cachorro e a pessoa que estava na rua ao mesmo tempo. E foi combinado que eles escolhessem as horas de sua vinda paracasa de maneira aleatória, que nem ela mesma soubesse previamente, que ninguém soubesse previamente; e ela viria para casa de táxi, para eliminar a possibilidade de sons de carros familiares. Esse, portanto, é um experimentoque foi realizado dentro dessas condições.

Na vida real, Pam não vem para casa em horas escolhidas aleatoriamente, eque ela própria desconheça previamente. Quando está no trabalho, ou quando sai para fazer compras ou visitar amigos, ela vem para casa em vários momentos diferentes, e nós monitoramos regularmente as horas em que elavolta, mais de 200 experimentos foram monitorados, temos dezenas deles emvídeo. O cachorro nem sempre reage, cerca de 85% das vezes JT realmenteespera por ela quando ela está vindo para casa, cerca de 15% ele não o faz. Analisamos as ocasiões em que ele não faz, a maioria das vezes ocorreu quando a cadela do apartamento vizinho estava no cio. Isso mostra que JTpode se distrair. Isso também ocorreu algumas vezes quando havia visitas na casa ou outro cachorro, e algumas vezes sem nenhum motivo. De qualquer forma, JT normalmente reage quando Pam decide que vai para casa. No filmevê-se que ele não começa a reagir quando ela entra no táxi, e sim quando elaestava pronta para ir para casa. Na vida real ele não reage quando ela entrano carro para ir para casa, e sim quando ela começa a se despedir dos amigos e pensando "bem, vou-me embora". Ele parece captar essa intenção dela. É bemverdade que JT vai até a janela ocasionalmente quando Pam não está a caminho de casa, normalmente porque vai latir para um gato que passa na rua ou está olhando alguma coisa que está acontecendo do lado de fora. Nesses gráficos incluímos todos esses casos, embora fique claro no vídeo que ele não está esperando, mas como os céticos dizem que, se você usar evidência seletiva isso demonstra que você inventou a coisa toda, não fizemos nenhuma seleção aqui. Às vezes há uns trechos barulhentos, quando ele vai até a janela de qualquer maneira, mas podemos ver que isso é a média de 12 ocasiões diferentes quando ela estava fora por mais de 3 horas. O tempo que ele está esperando na janela é maior quando ela está no caminho de casa do que quando ela não está. Vemos um pequeno aumento antes de ela ir para casa que, a meu ver, tem relação com esse efeito antecipatório.

JT está obviamente esperando por ela principalmente quando ela está no caminho de casa. O que é claro nesses gráficos é que JT não vai para ajanela com mais frequência quanto mais tempo ela estiver fora. Ele obviamente está muito mais na janela aqui, quando ela está no caminho devolta, do que nos períodos correspondentes aqui. Esses efeitos têm uma enorme significância estatística. Vários tipos de análise mostram significâncias que vão mais além da escala de meu computador. Esses efeitos são do tipo p é menor que .00001.

Esses resultados foram amplamente publicados na Grã-Bretanha, nos jornais, e- é claro - foram criticados pelos céticos, que estão sempre prontos paradizer que nada semelhante poderia ocorrer. Um dos céticos mais ativos na Grã-Bretanha, cujo nome é Richard Wiseman, disse que eu não tinha usado procedimentos adequados, não os tinha registrado de forma adequada, etc. Eufiz também muitos experimentos com horas de retorno aleatórias. Pam tem um pager em seu bolso que eu ativei por telefone de Londres e ela vem paracasa em momentos verdadeiramente aleatórios, usando um desses pagers da telecom. De qualquer forma, ele criticou os detalhes, então eu disse: "Tudo bem, por que você mesmo não faz o experimento? Eu organizo tudo para quevocê possa fazê-lo com o mesmo cachorro. Emprestamos uma câmera de vídeo, Pam irá onde você quiser, o seu ajudante ficará observando-a". Na verdade, então, o próprio Wiseman filmou o cachorro e ficou no apartamento dos paisda Pam, enquanto seu ajudante ia com a Pam para pubs, ou outros lugares, atéque em um momento determinado aleatoriamente fosse decidido que eles voltariam para casa. Eles checavam o tempo todo para garantir que não haveria chamadas telefônicas secretas, nenhum meio de comunicação invisível,nenhuma fraude ou trapaça.

Wiseman é um mágico, e ele é um desses céticos que está sempre afirmando que tudo pode ser feito por trapaça ou ilusionismo. Bem, ele mesmo esteve lá, eeles estavam se protegendo de tudo, e ele realizou três experimentos com Pamna casa de seus pais, e esses foram os resultados dos três experimentos que ele fez, usando todos seus controles rigorosíssimos, seu próprio procedimento aleatório, e outras coisas mais (os resultados são exatamente iguais aos outros; o público ri). Portanto, esses resultados são sólidos,mesmo com um cético, que ao fazer o experimento na verdade não quer que ele dê certo. Atualmente realizo uma série de experimentos em Santa Cruz,Califórnia, com um tipo de periquito italiano que mostra o mesmo tipo dereação: eles guincham quando o dono está vindo para casa, e obtemos quase o mesmo tipo de gráficos, mostrando que os guinchos vão aumentando de intensidade quando o dono está a caminho de casa em horas aleatórias.

Um cão e um ser humano, quando formam uma união entre eles, são parte de um grupo social. Os cães são animais intensamente sociais, eles descendem dos lobos que têm uma vida social intensa. Portanto, eu acho que o que ocorre quando uma pessoa sai de casa, é que ela ainda continua conectada pelo campomórfico da família, do qual o cão é parte. O campo mórfico se estica, por assim dizer, mas eles ainda estão ligados por esse campo mórfico, e é devido a essa conexão contínua invisível que a informação pode viajar, as intenções da pessoa podem afetar o cachorro em casa.

Portanto, eu interpreto tudo isso em termos de campos mórfícos. É claro, outras pessoas podem querer interpretá-lo em termos de outras coisas, e podeser que isso esteja relacionado com a não-localidade quântica, ninguém sabe.Existem na física quântica, fenômenos não-locais misteriosos, sistemas queforam conectados como parte do mesmo sistema, e quando são separados retêm essa conexão não-local e não separável à distância. Bem, uma pessoa e um cachorro, que estiveram conectados por terem vivido juntos com o companheiros, quando se separam podem ter uma conexão não-local semelhante. Mas ninguém sabe se essa não-localidade quântica se estende aos fenômenos macroscópicos ou não.



MEMÓRIA COLETIVA

Acho que esses campos têm uma espécie de memória, essa é minha ideia de ressonância mórfíca, o que significa que cada tipo de campo mórfico tem uma memória de sistemas passados semelhantes, por meio de um processo de ressonância através do espaço e do tempo. Os campos são locais, estão dentroe ao redor do sistema que eles organizam, mas sistemas semelhantes têm uma influência não-local através do espaço e do tempo, oriunda da ressonância mórfíca, que dá uma memória coletiva para cada espécie. Não tenho tempo de explicar os detalhes da teoria da ressonância mórfíca, a não ser para dizerque cada espécie neste planeta teria uma memória coletiva. Todos os ratos extrairiam memórias da memória coletiva de ratos anteriores. Se ratos aprenderem um novo truque no laboratório, outros ratos em outros locais deveriam ser capazes de aprender o mesmo truque mais rapidamente. Haja evidência, que eu discuti em meus livros, de que isso realmente ocorre.

No reino humano, se as pessoas aprendem uma nova habilidade, como windsurf,ou andar de skate, ou programação de computador, o fato de que muitas pessoas já aprenderam a mesma coisa deveria fazer com que fosse mais fácilpara os outros aprenderem. Bem, essa é uma teoria que, claramente, é muito polêmica, e eu a descrevi em detalhe em meus livros A new science of life e A presença do passado. Já houve um número considerável de testes experimentais, e quando um número grande de pessoas está envolvida, eles dão resultados positivos; com uma amostra pequena (20, 30 pessoas) aprendendo algo novo, os resultados são às vezes positivos e às vezes não significativos. Esses efeitos são relativamente pequenos e difíceis dedetectar no contexto de variações individuais. Mas há certos tipos de evidência que surgiram espontaneamente, que são relevantes aqui, e um deles está relacionado com testes de QI. Como vocês sabem, os testes padrão de QIvêm sendo ministrados por muitos anos para medir a inteligência e esses mesmos testes são aplicados ano após ano. Foram feitos estudos para examinara contagem de testes de QI no decorrer do tempo; quando examinamos o desempenho absoluto nesses testes - e aqui estamos falando de testes feitospor milhões de pessoas - os testes mostram um efeito muito interessante quefoi descoberto pela primeira vez por James Flynn, e portanto é chamado deEfeito Flynn: há um aumento misterioso e inesperado nas porcentagens do QI com o correr do tempo. Aqui temos um gráfico mostrando resultados de testes de QI, tirado de um número recente da revista Scientific American. As porcentagens aumentaram uns três por cento a cada década, não só nos EstadosUnidos, mas também na Inglaterra, na Alemanha e na França. Por que o QI éuma questão polêmica na psicologia, tem havido muita discussão sobre a razão pela qual isso aconteceu: melhor nutrição, escolas melhores, mais experiência com os testes, e assim por diante. Mas nenhuma dessas teorias foi capaz de explicar mais do que uma fração desse efeito. O próprio Flynn,após 10 anos pensando sobre isso, e testando todas essas explicações, chegouà conclusão que o efeito é desconcertante, não há explicação para ele na ciência convencional. No entanto, é apenas o tipo de efeito que seria de seesperar com a ressonância mórfíca. Não é porque as pessoas estão realmente ficando mais inteligentes, mas o que está acontecendo é que elas simplesmente estão mais eficientes quando fazem os testes de QI, e eu achoque isso ocorre porque milhões de pessoas já fizeram os mesmos testes.



CRISTAIS

Se você fizer um novo cristal que nunca existiu antes, não poderia existirum campo mórfico para esse cristal. Essa teoria se aplica também a moléculas. Se você a cristalizar repetidamente, o campo mórfico ficará mais forte, e ficaria mais fácil para a substância se cristalizar. Na verdade isso é um fato bem conhecido dos químicos, que os novos compostos se cristalizam com mais facilidade com o passar do tempo nos vários laboratórios. A explicação desses químicos é que isso ocorre porque fragmentos dos cristais anteriores são levados de um laboratório para ooutro, nas barbas de químicos migrantes, ou que foram transportados da atmosfera como partículas invisíveis de poeira. Mas eu estou sugerindo que isso poderia ser um efeito da ressonância mórfica e essa é uma das áreas em que ela pode ser testada. Na química existem também outras áreas onde ela pode ser testada.



O UNIVERSO E OS ANJOS

Átomos, moléculas, cristais, organelas, células, tecidos, órgãos, organismos, sociedades, ecossistemas, sistemas planetários, sistemas solares, galáxias: cada uma dessas entidades estaria associada a um campo mórfogenético específico. São eles que fazem com que um sistema seja um sistema, isto é, uma totalidade articulada e não um mero ajuntamento de partes.

Se, através da teoria de Gaya, estamos passando a enxergar a Terra como um organismo vivo, então será que a Terra pensa? Será que ela poderia ser consciente? E o Sol? Todas as religiões tradicionais tratam o Sol como sendo consciente. É um deus (Hélios), na religião grega. Mitra, na Pérsia. Surya, na Índia, onde seus devotos o saúdam pela manhã, através de um exercício deyoga chamado Surya namaskar. Portanto, estas são tradições que existem em todas as partes, mas, é claro, para nós, com uma estrutura científica, o Sol é apenas uma grande explosão nuclear do tipo que ocorre o tempo todo emitindo radiação.

O Sol, sabemos hoje em dia, tem uma série incrível de mutações de ressonância elétrica e magnética ocorrendo em seu interior: ciclos de onze anos, explosões de manchas solares, dinâmica caótica, freqüências ressonantes. Atualmente sistemas estão monitorando, com um detalhamento anteriormente considerado impossível, essas incríveis mudanças eletromagnéticas - minuciosas e complexas - que estão ocorrendo no Sol. Bem, se padrões elétricos complexos são uma interface suficiente para aconsciência e o cérebro humano, por que é que o Sol não poderia tê-los também? Por que o Sol não poderia pensar? E se o Sol é consciente, por que não as estrelas? E se as estrelas são conscientes, por que não as galáxias? Essas últimas teriam uma consciência de um tipo muito mais inclusivo do quea das estrelas que elas contêm. E se galáxias, por que não os grupos degalaxias? Então teríamos uma idéia de níveis hierárquicos de consciência portodo o universo. É claro, na tradição ocidental, como em todas as tradições, temos uma idéia exatamente desse tipo. A idéia das hierarquias dos anjos naIdade Média não era a de seres com asas - isso era apenas uma maneira bastante ingênua de representá-los. Eles eram compreendidos tradicionalmente como níveis de consciência além do humano. Havia nove níveis, dos quais três ou mais eram relacionados com as estrelas e com a organização de corpos celestiais. Eles eram as inteligências das estrelas e dos planetas, os três níveis intermediários dos anjos. Portanto, já existe a tradição no ocidente sobre uma consciência super-humana.

Fontes:

IPPB: A memória da natureza;

Revista Galileu

Referência: Site de Rupert Sheldrake;

O Renascimento da Natureza: o Reflorescimento da Ciência e de Deus; RupertSheldrake - Ed. Cultrix;

Caos, Criatividade e o Retorno do Sagrado: Triálogos nas Fronteiras doOcidente; Ralph Abraham, Terence McKenna e Rupert Sheldrake - Ed.Cultrix/Pensamento;

A revolução da consciência - novas descobertas sobre a mente no século XXI;Francisco Di Biase e Richard Amoroso - Ed. Vozes;

(1994). Seven experiments that could change the world. Londres, FourthEstate;

(l998). The sense of being stared at: experiments in schools. Journal of theSociety for PsychicalResearch, 62, p. 311-323;

(1998). Experimenter effects in scientific research: how widely are theyneglected? Journal of Scientific Exploration, 12, p. 73-78;

(1999). The sense of being stared at confirmed by simple experiments.Biology Forum, 92, p. 53-76;

(1999). Dogs that know when their owners are coming home. Londres,Hutchinson;

(1999). How widely is blind assessment used in scientific research?Alternative Therapies, 5, p. 88-90.

O Novo Homem


O novo homem é a maior revolução que já ocorreu no mundo. E já que conhecemos o velho mundo e suas misérias, podemos evitar toda essas misérias; podemos evitar todas essas invejas, todas essas seriedades, toda essas raivas, toda essas guerras, todas essas tendências destrutivas. O novo homem significa que não mais permitiremos que alguém nos sacrifique em nome de nenhum belo principio; vivemos nossas vidas não de acordo com idéias, mas de acordo com nossos anseios, com nossas intuições mais apaixonadas. E viveremos momento a momento; não seremos mais enganados com o “amanhã”, com as promessas de um amanhã. O novo homem não é um aperfeiçoamento do velho; não se trata de um fenômeno continuo, não se trata de refinamento. O novo homem é o nascimento de um homem absolutamente fresco – sem nenhum condicionamento, sem nenhuma nação, sem nenhuma religião, sem nenhuma discriminação entre homens e mulheres, pretos e brancos, Oriente e Ocidente ou Norte Sul. O novo homem será o verdadeiro sal da terra. Interessado em como aumentar as alegrias da vida, os prazeres da vida; em mais criatividade, mais beleza, mais humanidade, mais compaixão. Podemos sofrer uma total transformação: podemos criar pessoas inocentes, pessoas amorosas, pessoas que respiram em liberdade, pessoas que ajudam umas às outras a serem livres, que alimentam a criatividade umas das outras, que alimentam a dignidade e o respeito a cada um. O novo homem é o manifesto de uma nova humanidade, uma só humanidade. Este é um momento grandioso e afortunado – estarmos nesta situação de desafio. Esta situação não vai destruir a terra, mas apenas as igrejas os políticos e todos aqueles que se agarram ao passado.

“O novo homem não terá nenhuma cadeia, não terá nenhum juiz, não terá nenhum especialista em leis. Eles são absolutamente desnecessário, são crescimentos cancerosos no corpo da sociedade.”

Todos os sistemas legais nada mais são do que vingança da sociedade, vingança contra aqueles que não se adaptam ao sistema. De acordo comigo, alei não está protegendo o que é justo, ela está protegendo a mente da massa. Se é justo ou injusto, não tem importância. A lei é contra o indivíduo e a favor da massa; é um esforço para restringir o indivíduo e sua liberdade, sua possibilidade de ser ele mesmo.

“Minha confiança na existência é absoluta. Se houver alguma verdade naquilo que estou dizendo, isso irá sobreviver... As pessoas que permanecerem interessadas no meu trabalhoirão simplesmente carregar a tocha, mas sem imporem nada a ninguém...

“Permanecerei uma fonte de inspiração para o meu povo, e é isso que a maioria dos saniásins sentirá. Quero que eles desenvolvam por si mesmos qualidades como o amor, à volta do qual nenhuma igreja pode ser criada; como consciência, que não é o monopólio de ninguém; como celebração, deleite; e que se mantenham rejuvenescidos, com os olhos de uma criança...

“Quero que as pessoas conheçam a si mesmas, que não sigam as expectativas dos outros. E a maneira é indo para dentro.”

“Deixo a vocês o meu sonho”

Osho

domingo, 21 de dezembro de 2008

Sw Deva Prashanto


Sw. Deva Prashanto é um dos mais antigos terapeutas ligados ao Osho/Rajneesh no Brasil, tem uma longa experiência no sânias. Autor do livro "O dragão com asas de borboleta"; atualmente coordena grupos da Escola de Mistérios no Brasil e na Argentina."Conheci Osho (Rajneesh) em agosto de 1978, sem jamais ter ouvido falar dele. Fui a Puna apenas para cursar um "conselor training" na 'Rajneesh International Meditation University'. Depois descobri que não havia nenhuma 'universidade', mas já era tarde. No dia 12/10/78 recebi das mãos dele o meu mala e o nome. Essa história eu conto no prefácio do livro 'Meu Caminho: O Caminho das Nuvens Brancas' da Icone Editora. Da Índia, fui para o México onde fiquei até 1981.Ao voltar ao Brasil, passei por Brasília onde dei o meu primeiro grupo fora do Rio. Muitos 'velhos' saniasins do DF fizeram esse grupo. Em 1982 fui pela primeira vez a Rajneeshpuran, Oregon, USA. De lá voltei com autorização para abrir um centro de meditação, o Prashtan. Comprei então, junto com outro saniasin, uma casa no bairro de Santa Teresa, no Rio, bem em frente à que eu morava. Esse centro durou uns 3 anos. No ano de 1984, começamos a editar o 'Rajneesh News', sob a direção do Satyaprem, mas, por imposição da 'gang' da Sheela, fomos obrigados a fechá-lo. Entre 1982 e 1995, circulei por quase todas as capitais brasileiras, dando conferências, entrevistas em jornais , rádios e TVs. Passei vários anos coordenando grupos em 3 continentes: América do Sul (Brasil e Uruguai) e Central (Costa Rica), Europa (Espanha) e Israel, sempre voltando a Puna onde ficava um tempo descansando. Desde meados de 2002, comecei a realizar os encontros das 'Escolas de Mistérios'.